Jogos são arte? – parte 2

Jogos são arte? – parte 2

A resposta é: não.

Não procuro desmerecer o trabalho do Game Designer, e nem diminuir a importância econômica e cultural dos jogos, digitais ou não. Mas determinar que todos jogos, sem distinção, são arte, me parece uma generalização exagerada e ingênua.

Não há espaço aqui para discutir o assunto completamente, abordando os possíveis sentidos e funções da arte, da mídia e dos jogos. Mas a discussão, tão recorrente para os consumidores de jogos digitais e para os pesquisadores do assunto, oferece um bom ponto de partida para discutirmos os jogos digitais e o processo de comunicação.

O já falecido crítico de cinema Roger Ebert recebia muitas solicitações de seus leitores para avaliar jogos digitais, pois o reconheciam como um especialista em arte em geral. Queriam saber o que ele achava deste ou daquele jogo, se era arte ou não. Depois de muitas solicitações, ele respondeu seus fãs através de um texto, deixando sua posição clara já no título: “Video Games jamais poderão ser arte”.

Roger Ebert

Roger Ebert

Seu texto critica um “TED Talk” feito por Kellee Santiago, designer e produtora de jogos digitais que, por sua vez, defende que os jogos já são arte, apresentando alguns games como exemplo disto. Em análise, Ebert defende dois pontos principalmente: 1) “ninguém dentro ou fora do campo [dos videogames, complemento meu] já foi capaz de citar um jogo digno de comparação aos grandes poetas, cineastas, novelistas e poetas”  e 2) “Uma diferença óbvia entre arte e jogos é que em um jogo você pode vencer”. (EBERT, 2010) O ponto de vista de Ebert sobre a arte e os jogos é bastante revelador para nós, estudantes e desenvolvedores de jogos.

Com relação ao primeiro ponto, parece mesmo impossível comparar Shigeru Miamoto, o criador da franquia Super Mario Bros. e Zelda, à Salvador Dali, o espanhol surrealista – apesar de ambos trabalharem com um mundo dos sonhos, fantástico e lúdico. Mas, ao mesmo tempo, até que ponto é possível comparar o grande artista moderno a um pintor renascentista, ou a um escultor da Grécia Clássica? O que une todos estes nomes à arte? Ebert quer dizer que a arte reconhecida está relacionada aos grandes nomes já consolidados pelos seus campos como as grandes referências, estudados pelos especialistas, profissionais e acadêmicos. O campo dos jogos digitais, no entanto, não está consolidado, não é estudado e sequer é reconhecido. Ainda que seja exageradamente cruel, Ebert tem razão em apontar para a fraqueza do campo dos jogos digitais, ainda nos passos iniciais para se consolidar como um território da competência, inteligência e expressão humana.

Salvador Dalí

Salvador Dalí

Shigeru Miyamoto - Criador do Mario

Shigeru Miyamoto – Criador do Mario

 

 

 

 

 

 

 

 

A crítica de Ebert leva a um outro ponto importante da discussão, mas que fica implícito em seu texto. Afirmar que os autores de jogos não são comparáveis aos artistas consagrados é assumir, portanto, que os jogos têm um autor. A autoria não é algo explícito em todos os jogos, e nem necessário para sua existência. Não sabemos seguramente quem é o autor do Xadrez, do Poker ou do Futebol, e isso não os descaracteriza de qualquer forma. No entanto, muitos jogos digitais atuais tem um autor explícito, que procura transmitir sua visão de mundo através dos componentes à sua disposição[2]. Sid Meier, Kazushige Nojima, Emil Pagliarulo, Hideo Kojima e Jonathan Blow são alguns nomes reconhecidos por consumidores de jogos digitais. Isso implica que os jogos digitais podem ser uma ferramenta de expressão.

O segundo ponto de Ebert é que os jogos não podem ser arte pois são… jogos! Em seu texto original, ele complementa com a ideia que a arte não possui “regras, pontos, objetivos e um resultado” (EBERT, 2010). Esse é um argumento difícil de entender. É como se disséssemos que a arte, no seu princípio, não tinha objetiva, diafragma e obturador, e por isso a fotografia jamais ganharia esse status. Ao mesmo tempo, regras e pontos são elementos que caracterizam o jogo como uma atividade, e não como um objeto e, por isso, essa estranha comparação faça mais sentido se pensarmos os jogos em relação ao teatro, pois este também pode ser pensado como atividade. De qualquer modo, esse esforço comparativo parece em vão, pois essas expressões são sentidas através de diferentes contatos sensórios, cada qual do seu modo. Por isso, é tão difícil expressá-las com palavras (ARNHEIM, 2012).

Mas mais importante é reconhecer que Ebert, no conjunto de sua argumentação, tem razão: os jogos tem autoria, e também uma estrutura particular como nenhum outro meio apresentou até hoje. Essa estrutura particular e como é possível se expressar através dela é campo de pesquisa e debate dos Game Studies.

[1] Cf. EBERT, R. Video games can never be art. Roger Ebert, 2010. Disponivel em: <http://www.rogerebert.com/rogers-journal/video-games-can-never-be-art>. Acesso em: 6 Abril 2015.

[2] Apresentaremos melhor esse debate ao demonstrar alguns pontos da tese de Doutorado de Gonzalo Frasca.

 

Bibliografia

ARNHEIM, R. Arte & percepção visual: uma psicologia da visão criadora. Tradução de Ivonne Terezinha de Faria. 21a reimpr. da 1a ed. de 1980. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012.

SLATER, D. Cultura do consumo e modernidade. São Paulo: Nobel, 2002.

WILLIAMS, R. Cultura. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1992.

 

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